Não sei se você já assistiu aos filmes das Crônicas de Nárnia, em especial o Filme ”O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa”. Uma das cenas mais horríveis de toda a franquia é a cena da morte de Aslam, o Leão, o “Rei acima de todos os Altos Reis” em Nárnia.
Caso você não saiba, o autor C. S. Lewis se inspirou na fé cristã para compor sua obra, e essa cena da morte do Leão não poderia ser diferente. Na cena, vemos o leão que caminha silencioso, em meio a várias criaturas que zombam e escarnecem dele. Caminha lentamente rumo ao altar de sacrifício (nas crônicas, a ”mesa de pedra”).
Ali, podemos ver desde um um outro olhar, uma perspectiva alegórica, da caminhada da Jesus para sua Cruz. Se tomamos essa visão alegórica com uma leitura espiritual, você vai ver que aquela é a cena onde o inferno faz festa, um momento de escuridão tremenda, onde a esperança é abalada. Vemos também, Lucy e Susan, como símbolo daqueles que sofreram com Jesus, aos pés de sua Cruz.
Ó bendita árvore da Cruz, da qual brotou a nossa salvação… Que as graças especiais desse momento tão sombrio sejam, para mim e para você, fonte de copiosas lágrimas, que semeiam o solo da nossa oração. E te convido a meditar com essa homilia de Dom Henrique Soares, colocando-se aos pés da Cruz e abrindo seu coração para o toque da Graça.
Irmãos caríssimos, hoje a Igreja se reúne em oração para celebrar de modo solene a Paixão do seu Senhor e Esposo Jesus Cristo.
Nós O vimos: “Não tinha beleza nem atrativo para O olharmos, não tinha aparência que nos agradasse”. Ele mesmo, o Filho Eterno do Pai, o Filho Amado, foi entregue pelos nossos pecados, pelos pecados do mundo! Vimo-Lo desfigurado porque o pecado nos desfigura; vimo-Lo “homem coberto de dores” porque o pecado, o nosso pecado, sempre adolora, magoa o Coração de Deus, o coração de tantos e, por fim, o próprio coração do pecador. Vimo-Lo “ferido por causa dos nossos pecados, esmagado por causa dos nossos crimes”; por nossa causa, ferido das nossas feridas, esmagado como tantos, pelo peso da existência.
Eis Jesus nosso Senhor, “oferecendo a Sua vida em expiação” amorosa! Eis o nosso Salvador, tomando sobre Si nossas fraquezas, caindo com nossas quedas, atormentado com nossos tormentos! “Ele foi eliminado do mundo dos vivos; e por causa do pecado do meu povo, foi golpeado até morrer; Ele, que não praticou o mal, nem se encontrou falsidade em Suas palavras!”
Caríssimos, contemplemos o Senhor, homem de dores, fatigado com a Cruz, debaixo da Cruz, erguido na Cruz, feito cadáver na Cruz! Nele, contemplemos a situação do homem pecador, desfigurado, desgarrado, derrotado, amedrontado, entregue à morte da alma pela falta de sentido na sua existência! Homem crucificado pelo pecado, que pelo medo de morrer, pelo desejo desregrado de ganhar a vida, tornou-se escravo do Diabo (cf. Hb 2,15).
Agora, contemplemos novamente o Salvador! Nele divisamos também o quanto Deus nos ama, o quanto o Seu amor é concreto, efetivo, verdadeiro! Até onde Deus está disposto a ir para nos procurar, para nos salvar, para nos resgatar da morte: “Deus amou tanto o mundo que entregou o Seu Filho único para que todo aquele que Nele crê não pereça, mas tenha a Vida eterna” (Jo 3,16). Lições tremendas da Cruz: como o pecado é grave; como o amor de Deus é profundo, verdadeiro, concreto, eficaz, infinito! Amor que não é mero sentimento; amor que se manifesta na dura Cruz, nos pregos pontiagudos, na dor lacerante, nas gotas rubras de sangue derramado!
Contemplemos Jesus, o Salvador; mantenhamos “os olhos fixos Naquele que é o Iniciador e Consumador da fé” (Hb 12,2)! Nas palavras do Salmo que cantamos nesta Liturgia solene, quanta dor no Coração do Salvador; quanta confiança no Pai, quanta obediência, quanto abandono, quanta entrega: “Senhor, Eu ponho em Vós a Minha esperança; que Eu não fique envergonhado eternamente!” A dor do nosso Cristo não foi um teatro: dor real, como a nossa, como a do mundo; dor que pode destruir, levar ao desespero, como a de tantos machucados em todos os tempos: “Fogem de Mim os que Me veem pela rua; os corações Me esqueceram como um morto e tornei-Me como um vaso espedaçado!” E, no entanto, a dor do nosso Salvador não O destruiu, porque foi dor de amor, dor feita esperança, feita certeza da salvação que vem da fidelidade do Senhor Deus: “A Vós, porém, ó Meu Senhor, Eu Me confio e afirmo que só Vós sois o Meu Deus! Mostrai serena a Vossa Face ao Vosso Servo!” Esperando amorosamente no Pai, o Filho amado tudo entregou ao Seu Deus e Senhor: “Em Vossas mãos, Senhor, entrego o Meu Espírito, porque Vós Me salvareis, ó Deus fiel!” – Senhor Jesus Cristo, tomaste sobre Teus ombros as dores do mundo, a nossa dor! E Tua entrega amorosa ao Pai, Tua confiança inquebrantável, nos salvou! Fomos salvos pelo Teu amor, amor redentor, amor salvador! É o amor, o Teu amor, que salva o universo! Nós Te adoramos, ó Cristo nosso Deus Salvador pela Teu amor feito obediência, pela Tua entrega total, até à morte por nossa causa! Tu, sofrendo, deste novo sentido à dor humana; Tu, obedecendo, redimiste e curaste nossas tantas e tão repetidas desobediências; Tu, morrendo, destruíste a morte, que agora se torna caminho para a Vida! Bendito sejas, ó nosso Salvador, ó nosso amado Jesus, pela Tua dolorosa Paixão, pela Tu morte feita total entrega de amor ao Pai por nós!
Irmãos amados, foi assim, entregando-Se até à morte e entrando no Santuário dos Céus com o Seu próprio sangue, que Jesus, o Cristo, se tornou o nosso eterno Sumo-Sacerdote! Aquele que sofreu nos tempos da Sua vida entre nós, agora é nosso Advogado, nosso Mediador; Aquele que derramou Seu sangue neste mundo, agora, com Seu sangue nos santifica para sempre, como “Cordeiro de pé como que imolado” (Ap 5,6) na Glória do Pai; Aquele que “aprendeu a obedecer por aquilo que sofreu” “até a morte e morte de Cruz” agora, glorioso e vivo para sempre, é “causa de salvação eterna para todos os que Lhe obedecem!”
Estamos salvos, caríssimos! Fomos salvos pelo sangue de Cristo, isto é, por Sua vida dada, derramada, entregue a vida toda, até o extremo da Cruz! Fomos salvos porque, Aquele que hoje contemplamos como homem de dores, vê-Lo-emos ressuscitado no Espírito Santo (cf. 1Tm 3,16), pleno de vitória e glória, no Santuário dos Céus, tendo nas mãos “a chave da Morte e do Hades” (Ap 1,18). Nele está a nossa vitória sobre a morte, Nele se encontra a nossa Vida, Nele, a nossa firme esperança de ressurreição, Nele, a nossa vitória nesta vida e na outra!
Contemplemo-Lo, Irmãos! “Eis o Homem!”
Admiremo-Lo, meus caros! Eis “Jesus de Nazareno, o Rei dos Judeus!”
Adoremo-Lo, cristãos! “Na verdade, este homem é o Filho de Deus!” (Mc, 15,39).
Que Ele, pela Sua Paixão e Cruz, Morte e Sepultura, tenha piedade de nós e do mundo inteiro! Amém.
Dom Henrique Soares da Costa
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